Entre março e setembro de 2026, o ChatGPT mudou de forma visível o tipo de site que cita nas respostas a usuários dos Estados Unidos. Um levantamento da Ahrefs com milhões de respostas mostra que bases de pesquisa, portais governamentais de saúde, órgãos reguladores e sites de testes práticos ganharam posições. Sites que explicam e resumem informações produzidas por outros perderam.
O caso mais claro é o do PubMed, a base de artigos científicos da Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, que subiu da 64ª para a 4ª posição entre os domínios mais citados. O WebMD, um dos maiores portais de saúde do mundo, fez o caminho inverso e caiu da 18ª para a 79ª.
A leitura que os dados sugerem é direta: quando o ChatGPT pode citar quem produziu a informação, ele tende a preferir essa fonte a quem apenas a reorganizou. Para empresas que investem em conteúdo, a pergunta deixa de ser “estou explicando bem esse assunto?” e passa a ser “o que eu publico que ninguém mais poderia publicar?”.
O que mudou nos sites mais citados pelo ChatGPT
A Ahrefs analisou os 200 domínios mais citados pelo ChatGPT em respostas nos Estados Unidos, com base em 2,4 milhões de respostas em março e 3,8 milhões em setembro de 2026. A comparação entre os dois meses mostra o mesmo movimento em áreas bem diferentes.
Ganharam espaço as fontes que produzem ou oficializam a informação: PubMed, FDA (que entrou no ranking já na 8ª posição), CDC, NIH, MedlinePlus e o serviço de saúde britânico NHS; reguladores como a SEC, a FTC e o CFPB, agência americana de proteção ao consumidor financeiro; sites que testam produtos na prática, como o RTINGS; e páginas oficiais de fabricantes e de suporte, como as de Apple, Google e Microsoft.
Perderam espaço os intermediários. Portais que explicam saúde e finanças a partir de outras fontes, como WebMD, Healthline, Verywell Health e Investopedia, caíram. Obras de referência como Wikipédia e Britannica também. Três nomes conhecidos, Britannica, Investopedia e New York Post, saíram completamente do top 200.
Um ranking desse tipo pode mudar por um motivo menos interessante: a base de perguntas monitoradas cresce com o tempo, e perguntas novas trazem fontes novas. Para descartar esse efeito, a Ahrefs isolou cerca de 25 mil prompts que estavam entre os 150 mil de maior volume tanto em março quanto em setembro. Nessas perguntas idênticas, todos os sites do levantamento se moveram na mesma direção. A mudança, portanto, não parece vir só da troca de perguntas, mas de uma mudança na forma como as fontes são escolhidas.
Reddit e Wikipédia: queda forte, mas sem sumir
Os dois domínios que mais apareciam nas respostas do ChatGPT no começo do ano perderam boa parte do espaço. O Reddit era citado em 19,1% das respostas nos EUA em março e passou a 2,3% em setembro, o que equivale a sair de cerca de uma em cada cinco respostas para uma em cada 43. A Wikipédia caiu de 14,1% para 2,9% no mesmo período.
Os dois continuam entre os domínios mais citados, mas a queda conversa com o restante dos dados. A Wikipédia é, por definição, uma obra que resume o que outras fontes publicaram. Ela organiza o conhecimento muito bem, e o ChatGPT faz o mesmo tipo de trabalho.
O Reddit é um caso diferente e ajuda a entender o padrão. Mesmo citado com menos frequência, ele segue como o 9º domínio que o ChatGPT mais pesquisa diretamente, em buscas restritas ao próprio site, e análises reunidas pela Ahrefs indicam que o modelo recorre a ele principalmente quando procura a opinião de usuários reais. Um relato em primeira mão é, à sua maneira, um dado que só aquela pessoa tem.
Por que o resumo perde espaço para a fonte original
Fonte primária é quem produziu a informação: o estudo que gerou o dado, o órgão que publicou a regra, o fabricante que definiu a especificação, o laboratório que testou o produto. Conteúdo secundário pega essas informações e as reorganiza, explica ou resume.
O ChatGPT é, essencialmente, uma ferramenta de síntese. Quando responde a uma pergunta, ele já faz o trabalho que um portal explicativo faria. Citar esse portal coloca uma camada a mais entre a resposta e a origem da informação. Citar a origem encurta o caminho. Os dados mostram o movimento, não o motivo, mas a direção é coerente com essa lógica.
As palavras que o ChatGPT usa nas próprias buscas reforçam a leitura. Entre agosto e setembro de 2026, o termo “official” passou de 10,1% para 13,1% das consultas em inglês feitas pelo modelo em segundo plano. “Price” subiu de 6,0% para 8,9%, uma alta relativa de 47%. Buscas com “reviews” cresceram cerca de um terço, e “specifications” entrou pela primeira vez entre os 50 termos mais frequentes. Na direção contrária, “meaning” e “definition” caíram cerca de um quinto.
Em outras palavras: o ChatGPT pesquisa cada vez menos o que uma coisa significa, porque isso ele já sabe, e cada vez mais preço, especificação, avaliação e informação oficial, que mudam e pertencem a alguém.
Como o ChatGPT pesquisa antes de responder
Nem toda resposta do ChatGPT envolve uma busca na web. Quando envolve, o modelo costuma desdobrar a pergunta do usuário em consultas menores, executadas antes da resposta. Esse processo é chamado de query fan-out, algo como consultas em leque.
Para medir esse comportamento, a Ahrefs analisou 66,6 milhões de respostas do ChatGPT em sessões gratuitas e sem login, geradas pelo modelo GPT-5.6 Luna em agosto e setembro de 2026, em todos os países. Os números principais:
- 14,4% das respostas envolveram uma busca na web;
- as respostas que pesquisaram fizeram, em média, cerca de 1,6 consulta em segundo plano, somando aproximadamente 15 milhões de consultas;
- 6,8% dessas consultas usaram o operador
site:, que restringe a busca a um domínio específico, e se espalharam por cerca de 116 mil domínios; - entre as buscas com
site:direcionadas aos cerca de 160 domínios mais pesquisados, 75,9% foram para sites de marcas, como apple.com e ikea.com, contra 11,9% para varejistas e 1,9% para Reddit e Facebook somados.
Para quem atua no Brasil, um dado chama atenção: o gov.br aparece como o 10º domínio mais pesquisado com site: nessa amostra mundial, à frente do gov.uk. Domínios de governo de vários países ficaram entre os 150 mais buscados. Quando a pergunta envolve regra, benefício, documento ou procedimento oficial, o ChatGPT vai direto a quem publica a regra.
Um teste separado, com 20 mil prompts nos EUA, aponta na mesma direção. Em perguntas factuais sobre preço, características de produto ou dados de uma empresa, 84,4% das respostas citaram pelo menos uma fonte oficial. Em perguntas comparativas, do tipo “A ou B”, o índice foi de 68,3%.
O que isso significa para empresas brasileiras
Toda empresa é a fonte primária sobre si mesma. Preço, serviços oferecidos, região de atendimento, prazos, especificações técnicas, certificações, garantias, resultados de projetos: ninguém tem essas informações com mais autoridade do que a própria empresa. E é justamente esse tipo de informação que o ChatGPT tem buscado com frequência crescente.
O problema é que boa parte dos sites corporativos brasileiros faz o contrário. Investe em artigos que explicam conceitos gerais e esconde justamente o que só a empresa poderia informar.
Alguns exemplos ajudam a enxergar a diferença:
- uma empresa de energia solar que publica um texto explicando as regras de compensação de energia está competindo com a ANEEL e com a própria legislação. Os dados de geração medidos nos sistemas que ela instalou, em cidades e telhados reais, não existem em nenhum outro lugar;
- uma clínica que escreve sobre “o que é bioestimulador de colágeno” disputa espaço com sociedades médicas e grandes portais. Como o procedimento é feito ali, quem executa, quanto tempo leva e o que está incluído só a clínica pode dizer;
- um fabricante de painéis elétricos pode publicar normas atendidas, certificações e especificações dos produtos que fabrica. Um portal de engenharia, no máximo, repete o que encontrou no site do fabricante.
Hábitos comuns no mercado brasileiro também atrapalham. “Consulte valores pelo WhatsApp”, catálogo técnico só em PDF, tabela de preços dentro de uma imagem, informações de atendimento apenas no Instagram. Quando o ChatGPT faz uma busca restrita ao domínio de uma empresa procurando preço ou especificação e encontra só um botão de contato, a tendência é que a resposta seja montada com a informação de outra fonte: um marketplace, um concorrente ou um portal genérico.
Nem toda empresa pode publicar um preço fechado, e isso é legítimo. Mas faixas de investimento, fatores que compõem o orçamento, condições de atendimento e especificações em texto simples, em páginas que os buscadores conseguem ler, já transformam o site em uma fonte muito mais útil.
Para quem quer ir além das informações básicas, a pesquisa original com dados primários é o próximo passo: levantamentos com clientes, análises de projetos executados, comparações feitas em campo. É o tipo de conteúdo que concorrentes não conseguem copiar e que sistemas de IA têm motivo para citar.
O movimento também ajuda a explicar por que blogs cheios de explicações genéricas, muitas vezes produzidas em escala, perdem fôlego. É o mesmo diagnóstico de quando uma estratégia de conteúdo com IA não se sustenta: volume sem experiência real e sem informação própria vira um texto que o próprio ChatGPT consegue escrever sozinho.
O que os dados ainda não mostram
Os números são fortes, mas têm limites que merecem ser considerados antes de qualquer decisão.
O ranking de citações se refere a respostas dadas nos Estados Unidos. O comportamento em português e em perguntas feitas a partir do Brasil pode ser diferente. Já a análise de buscas em segundo plano é um retrato de um único modelo, em sessões gratuitas, ao longo de dois meses. Modelos pagos e de raciocínio pesquisam mais. Um estudo da Nectiv, feito com cerca de 4 mil prompts no GPT-5.6 Sol via API, encontrou média de 7,61 consultas por prompt, número bem maior que o da Ahrefs. As amostras não são diretamente comparáveis, porque modelos, prompts e métodos de coleta são diferentes.
Também vale lembrar que posição no ranking de citações não mede tráfego. Ser citado não significa receber cliques.
Por fim, cada plataforma tem seu próprio comportamento. ChatGPT, Gemini e Google citam fontes diferentes, e o que vale para um não vale automaticamente para os outros. E o próprio ChatGPT mostrou que pode mudar bastante em seis meses. A próxima atualização de modelo pode alterar esse padrão de novo.
O que observar daqui para frente
O ChatGPT já ocupa o papel de quem resume. O espaço que sobra para o site de uma empresa é ser a origem da informação, e não mais uma versão dela.
Na prática, um bom ponto de partida é separar o conteúdo do site em dois grupos: o que só a sua empresa poderia publicar e o que qualquer outro site poderia escrever igual. O segundo grupo não precisa desaparecer, mas dificilmente será o motivo para uma IA citar a sua marca. Depois, vale testar como o ChatGPT responde às perguntas centrais do seu segmento, observar quais fontes ele cita no lugar da sua empresa e repetir essa checagem sempre que um novo modelo for lançado.
Esse diagnóstico costuma fazer parte de uma consultoria de SEO que já considere a busca por IA, conectando o que o site publica ao que os clientes realmente perguntam.
Fica a pergunta: se o ChatGPT precisasse hoje de uma informação que só a sua empresa tem, ele a encontraria publicada no seu site?
Para se aprofundar mais no assunto, acesse o artigo original no Search Engine Journal: ChatGPT’s Most-Cited Sites Tilt Toward Primary Sources, Data Shows.